quarta-feira, 28 de maio de 2014

Um rebelde em plena ditadura

Afonso Celso Garcia Reis, mais conhecido por Afonsinho, é um médico e ex-jogador de futebol, com passagens pelo XV de Jaú (onde foi revelado), Botafogo, Olaria, Vasco da Gama, Santos, Flamengo, América-MG e Fluminense. Jogava como meia-armador e se destacou principalmente no Botafogo, onde conquistou todos os títulos possíveis, 2 Cariocas, 1 Rio - São Paulo e 1 Brasileiro, sendo inclusive o capitão do time na conquista da Taça de Prata de 1968.

Afonsinho enfrentou cartolas e a ditadura

Apesar da habilidade e da técnica, já tendo conquistado a torcida do alvinegro carioca, Afonsinho passou para a história por outro motivo. Pouco antes de se transferir ao Botafogo, o Brasil sofreu um golpe que resultou no início da Ditadura brasileira. Assim, a partir de 1968, com a institucionalização do AI-5, o aparelho ditatorial estatal passou a reprimir e a monitorar a sociedade civil brasileira, iniciando uma época de auge da repressão da Ditadura.

Diversos artistas e jogadores brasileiros foram monitorados. Afonsinho foi um dos jogadores considerados subversivos pelos órgãos ditatoriais. O atleta tinha um visual que lembrava Che Guevara, com barba e cabelos compridos, e ainda era estudante de medicina na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), envolvido nas questões políticas de sua Universidade, participando do movimento estudantil e se declarando socialista em plena Ditadura.

Em 1968, na época de estudante de medicina ao mesmo tempo em que era jogador, Afonsinho quase trocou o esporte pela luta armada. Participando dos grupos de discussão da Universidade, acabou pensando na sua entrada para a luta armada após um dos acontecimentos mais emblemáticos durante os anos de chumbo: o assassinato do estudante Edson Luís Souto. As consequentes manifestações nas ruas do Rio empolgaram o atleta que era filho de ferroviários e desde criança, quando morava em Marília, no interior de São Paulo, convivia com causas sociais, aprendendo dos pais a ter preocupações sociais. Afonsinho acabou não entrando na resistência armada contra a Ditadura, mas passou a ser cada vez mais vigiado.

Foi em 1970 que o jogador encontrou os primeiros problemas com o Governo brasileiro. Ele foi emprestado pelo Botafogo ao Olaria, pois teria “entrado em divergências” com a diretoria do clube. O atleta aproveitou o exílio forçado no time emprestado para completar seus estudos em medicina e terminar o seu curso superior. Na época, o técnico do fogão era Zagallo, treinador da seleção brasileira na Copa de 1970, colocado pelos militares no comando da seleção depois de substituir João Saldanha (leia o nosso post sobre Saldanha).

Não sendo muito utilizado no Olaria, voltou no mesmo ano ao fogão, mas foi proibido de jogar e treinar no Botafogo, sendo pedido pela diretoria que ele cortasse sua barba e cabelos longos. Afonsinho se negou e pediu a liberação de seu passe. Como a diretoria do time carioca não cedeu, ele entrou na justiça e se tornou o primeiro atleta do Brasil a ganhar na justiça o direito do passe livre, em março de 1971.

O fato foi tão marcante que Pelé, em fim carreira no Santos, declarou em 1972 que “O único homem livre do Brasil é o Afonsinho”. Pelé argumentou: “homem livre em futebol? Homem livre eu só conheço um: Afonsinho. Este sim pode dizer com suas palavras que deu o grito de independência ou morte”.

Após a conquista do passe livre, Afonsinho não teve vida fácil para encontrar novos clubes dispostos a aceitar um rebelde jogador na situação política pela qual o país se encontrava. Quando acertou com o Santos, em uma excursão internacional com o time praiano do estado de São Paulo, um jornalista o avisou que estava sendo monitorado, pois os militares acreditavam que Afonsinho iria aproveitar para contatar socialistas em alguma embaixada.

Lutando então contra a repressão e monitoramento da Ditadura, além de encarar os preconceitos dos clubes perante seu jeito subversivo, Afonsinho acabou encerrando sua carreira no futebol no Fluminense, em 1981.

A revolta de um jogador contra o sistema em vigor acabou marcando Afonsinho como um símbolo de luta pela liberdade em pleno Governo Médici, sendo um ícone para a resistência da esquerda. Por sua rebeldia e engajamento político acabou inspirando a música "Meio de Campo" de Gilberto Gil, gravada em 1973, e foi tema do filme “Passe Livre”, longa-metragem dirigido por Oswaldo Caldeira, realizado em 1974.


(por Thomaz Lemmi)



Ouça a música de Gilberto Gil sobre Afonsinho:



Veja ainda o documentário "Passe Livre":





Nenhum comentário:

Postar um comentário