domingo, 11 de maio de 2014

As Copas de Mussolini

Como em outros regimes autoritários, não demorou muito tempo para o fascismo entender a força que o espetáculo esportivo pode exercer sobre uma sociedade de massas. 

Jogadores italianos fazem reverência fascista na final da Copa de 1934

Porém, Benito Mussolini inicialmente investiu nos chamados esportes de guerra, como boxe, ginástica, esgrima, natação e tiro. Posteriormente, o futebol seria o representante mais simbólico dos valores do regime, demonstrando força física e heroísmo.
 
A Copa de 1934 foi realizada na Itália no auge do fascismo. Claramente seu ditador tinha o ideário de reviver o poderio vivido no Império Romano, mostrando ao mundo a “Nova Itália” com a bola rolando. No entanto, isso só poderia ser consolidado através da vitoria do anfitrião. E Mussolini manipulou o que foi possível para que isso acontecesse.

Uma das primeiras medidas foi a criação da “Coppa II Duce”, uma taça auto-homenagem com proporções gigantescas perto da que era oferecida pela Fifa, que também seria entregue à seleção campeão. 

Como o esperado, a Itália avaçou à seminifinal da Copa para enfrentar a temida seleção da Áustria, que estava invicta há três anos. Na véspera da partida, Mussolini jantou com o árbitro da partida, o sueco Ivan Eklind, escalado pelo próprio Duce. 

O teor da conversa entre Mussolini e Eklind nunca foi divulgado. Porém, em campo, os austríacos e o resto do mundo logo souberam o que tinha sido acertado. Com um gol polêmico, que estaria impedido, a Itália venceu por 1 a 0. Alguns jogadores relataram que o árbitro teria até interceptado com uma cabeçada um lançamento de jogador austríaco. 

Jogadores italianos comemoram conquista da Copa de 1934

Mas ainda faltava vencer a final. O adversário dos italianos seria a equipe da Tchecoslováquia, o último oponente para alcançar seu maior objetivo: a vitória da Copa do Mundo em casa. Sem nenhuma surpresa, o sueco Ivan Eklind, foi novamente escalado como juiz da partida. E a cena se repetiu: nova conversa de alcova como Mussolini e a garantia de que a seleção do Duce contava, em campo, com um décimo segundo jogador. Os tchecos sabiam que, além da torcida que entoava cânticos de louvor a Mussolini e da seleção italiana, tinham mais um obstáculo a superar: a arbitragem.

Antes da partida ocorreu um fato inédito, que jamais de repetiu em outra Copa do Mundo. Os jogadores da Alemanha, que haviam conquistado o terceiro lugar, entraram ao lado das seleções da Itália e Tchecoslováquia desfraldando a bandeira do país com a suástica nazista. Não bastasse isso, o público ainda viu o trio de arbitragem fazer a saudação nazista a Mussolini.

Mussolini postou-se na tribuna do estádio com olhos fixos. Puc abriu o placar para os tchecos. Apenas nove minutos antes do encerramento da partida, Orsi igualou para os italianos. Na prorrogação, Schiavo fez a festa da torcida e de Mussolini, consolidando a tão sonhada vitoria da Azzura.

Entretanto, a influência do Duce também foi marcante na Copa seguinte, realizada na França. Mesmo sem controle direto, Mussolini deixaria sua influência nos uniformes pretos usados nas quartas de final contra a anfitriã, que utilizava os mesmos uniformes azuis da seleção italiana. O preto das camisas era uma alusão clara às vestimentas que os seguidores do líder fascista usavam.

O ápice da exploração propagandista do regime usando o futebol deu-se pouco antes na final com vitória dos italianos por 4 a 2 sobre a Hungria. Já no vestiário, os jogadores receberam um telegrama de Mussolini com os seguintes dizeres: “Vencer ou morrer”. Se vencessem, seriam recebidos em Roma como os “novos gladiadores”, caso contrário poderiam não chegar vivos à Itália. O goleiro húngaro Szabo declarou na época sobre a derrota: “salvamos a vida de onze homens”.

Mussolini usou o futebol para reforçar poder do fascismo


“Para o regime, o êxito esportivo e a potencialidade propagandística criavam mais uma vez uma ocasião monumental, capaz de ritualizar a fidelidade nacional e exaltar valores do regime”, observa Gilberto Agostino, autor do livro “Vencer ou Morrer- Futebol, geopolítica e identidade nacional”. 

A propaganda política podia se tornar uma arma de grande eficiência na árdua tarefa de unificação nacional, sendo comumente organizada com base em apelos, cujo objetivo era sensibilizar o povo italiano para práticas políticas de sustentação do poder. 

O alinhamento entre futebol e política é tão antigo quanto o jogo. O maquiavélico poder autoritário sempre enxergou nos gramados a derradeira vertente de incorporar sua dogmática. Ainda em 1929, Mussolini autorizou seu ministério a criar uma Copa do Mundo de alto nível, superando a pioneira no Uruguai. A primeira com transmissão via rádio na Europa.  

Novos modelos de nação e cidadania eram produzidos e precisavam chegar em seu público-alvo. O esporte se mostrava um grande aliado da propaganda desse regime.

(Por Amanda Macedo)


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Para saber mais sobre o assunto, assista ao documentário da BBC Four "Fascism and Soccer".
 
 
 


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